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19 abril - O congresso futurista (2013) - Ari Folman

 


Robin Wright interpreta ela mesma, como uma atriz problemática, com dificuldades de escolher bons papéis e com a carreira em declínio. Neste contexto recebe uma última oferta de Hollywood: Vender sua imagem, através de alta tecnologia, criando uma atriz digital idêntica a ela, para que os estúdios a usem em filmes escolhidos por eles. Robin tem um filho, Aron, que necessita de cuidados especiais, por estar perdendo a visão e a audição e uma filha adolescente, que a estimula na carreira. Sem muitas saídas, Robin Wright aceita ser escaneada numa última representação, sabendo que não poderá atuar novamente outra vez. Passados 20 anos, quando seu personagem digital já ganhou muita fama, Robin é a convidada com participação de honra, no Congresso Futurista, evento promovido pela indústria de entretenimento, onde será lançada uma nova droga que permite a qualquer um ser quem quiser.
O congresso futurista é mais uma inquietante de Folman que coloca em discussão limite entre realidade e ilusão. A partir da entrada da atriz no tal Congresso, o filme vira uma animação lisérgica, repletas de referencias ao universo pop, porém o futuro retratado por Folman é sombrio na medida em que este mundo glamoroso, colorido e virtual, simbolizando toda a possibilidade de felicidade humana acessada pela droga química, é a única saída e possibilidade de utopia de uma sociedade não virtual, falida sob o ponto de vista econômico e social.

O Congresso Futurista (2013)
Ari Folman
 



22 março - Ninfomaníaca (2013) - Lars Von Triers




Desfalecida e com marcas de agressão, Joe (a ninfomaníaca) é encontrada num beco por Selligman, um pacato senhor de meia idade que decide ajudá-la. No apartamento de Selligman, enquanto é amparada por ele, Joe conta sua estória de sexo e violência desde a infância até a fase adulta. Seligman, que é virgem, ouve o luxuriante relato e faz interessantes associações dos fatos contados com a literatura, pescaria, música, matemática e religião, criando um estranho clima de entendimento das razões da personagem, através de um viés psicológico.
Dividido em duas partes, por conta das quase cinco horas de projeção, o filme mergulha no universo de Joe através de oito capítulos, que descrevem sua infância e o seu interesse pelo clitóris, passando pelo primeiro e talvez único orgasmo, a perda da virgindade, a maternidade frustrada, até as sessões de dominação e a utilização de sua psicologia sexual em uma máfia de cobradores, já na fase adulta. Apesar das cenas de sexo explicito e o tom realisticamente soturno e desconfortável que o diretor costuma dar aos seus filmes, Ninfomaníaca não é pesado. Embora seja crescente as situações de violência e desespero envolvendo Joe, é somente nos aproximadamente 40 minutos finais do filme que explode toda a carga de provocação que só Lars Von Trier poderia conceber.

Ninfomaníaca (2013)
Lars Von Triers

19 março - Um Estranho no Lago (2013) - Alain Guiraudie



O lago afastado e cercado por florestas e montanhas é o cenário de encontros de homossexuais que aproveitam o isolamento para pratica do nudismo e sexo casual.
Franck é um dos freqüentadores do local e costuma ter a companhia do solitário Henri, com quem desenvolve uma relação de afeto. Franck começa a sentir atração por Michael, um belo jovem que começou a freqüentar o lago neste verão. Apesar de saber do comportamento perigoso do rapaz, Franck se deixa envolver numa relação de desejo e medo.
O mundo fechado do belíssimo lago, com suas relações superficiais e puramente pautadas no sexo, acaba por aprofundar a sensação de solidão de Franck a tal ponto deste se colocar em situação de risco, sem o medo da morte anunciada. O filme ganhou repercussão por causa de suas cenas de nudez masculina e sexo explícito, mas Guiraudie vai muito além disto quando expõe as fragilidades e comportamentos dos guetos gays e sua falsa ilusão de segurança.

Um Estranho no Lago (2013)
Alain Guiraudie

25 fevereiro - 12 anos de escravidão (2013) - Steve McQueen



Solomon Northup, é um homem negro livre, que tem uma boa viva e prestigio social e vive de apresentações de música com seu violino, no período que antecede a guerra civil americana. Um dia, enganado com a promessa de ganhar mais dinheiro em....., Solomon é seqüestrado e vendido como escravo. Lutando principalmente para manter sua dignidade, enquanto passa por toda sorte de desventura, humilhação e horror, Solomon, passado doze anos, encontra finalmente ajuda com um jovem abolicionista canadense, que conheceu por acaso, na fazenda de seu mestre.
O filme mergulha na ferida da escravidão, principalmente americana, mostrando suas minúcias, abusos e mazelas, que imprimiam no pensamento de seus dominados, a condição de aceitação do status de escravo passivo, como a única forma de sobrevivência. Talvez o que mais assuste em 12 anos de escravidão, seja o fato que tais pensamentos de inferioridade da raça negra, ainda encontrem ecos no cotidiano. A cena que Solomon fica preso, agonizando diante de todos durante horas com uma corda no pescoço enquanto a lida na fazenda segue absurdamente normal, diz muito sobre o baixo valor da carne negra naquela época e ainda, na atualidade. McQueen por vezes brutal por vezes sutil, brilhantemente faz pensar sobre paralelos com os tempos atuais, só demonstrando que apesar dos avanços, ainda precisaremos de muitos anos para curar as marcas deixadas pela ideologia da escravidão, ainda tão arraigadas na cultura tanto de quem discrimina quanto de quem é discriminado.

12 anos de escravidão (2013)
Steve McQueen

23 fevereiro - Clube de compras Dallas (2013) - Jean-Marc Vallée



Anos oitenta, em pleno surgimento e avanço, a AIDS, já estigmatizada como doença gay, faz de Rock Hudson, uma de suas primeiras vítimas importantes. Neste contexto, em 1986, Ron Woodroof, um vaqueiro hetero e homofobico, depois de ser levado ao hospital para tratar de um acidente de trabalho, descobre que está com vírus do HIV e tem aproximadamente 30 dias de vida. Apesar do estado debilitado, do preconceito e da hostilidade dos amigos, Ron inicia uma luta para conseguir os remédios que possam lhe dar uma sobrevida. Depois de fugir para o México, tem contato com medicamentos alternativos que dosados corretamente apresentam bons resultados. Disposto a faturar, inicia o contrabando destes medicamentos, trazidos ilegalmente de várias partes do mundo, que serão vendidos, com a parceria do travesti Rayon, para a comunidade infectada de Dallas, através de um pacote de cotas. Independente dos avanços de saúde no uso dos coquetéis fornecidos por Ron a sua clientela, a indústria farmacêutica lobistas, além de outras coisas, está bem interessada no filão financeiro que tem Ron e seu clube de compras, como uma possível ameaça aos seus já estabelecidos planos.
Jean-Marc Valle reproduz o obscuro panorama que se instalou com a chegada e estigmatização da doença, através da luta de Ron contra um sistema de desinformações, medo, preconceitos e lobby de uma indústria que via na nova infecção um transbordante meio de lucro.

Clube de compras Dallas (2013)
Jean-Marc Vallée

20 fevereiro - Ela (2013) - Spike Jonze



O escritor Theodore vive em um futuro não muito distante, onde apesar da tecnologia de ponta e da alta conectividade entre pessoas, a solidão e o individualismo tornaram os humanos anti-sociais. Neste mundo de lapsos entre vida real e virtual, os sentimentos podem ser encomendados, descritos e enviados sob a forma de anacrônicas cartas, através do serviço prestado pela empresa em que Theodore trabalha e é um dos mais brilhantes funcionários. O escritor, em processo de divorcio, ainda procura entender as razões de sua atual crise melancólica, enquanto rememora os bons momentos em que viveu casado. Num belo dia, Theodore tem contato com um novo sistema operacional de ponta, auto nomeado de Samantha, que é programado para atender as necessidades do usuário e é construído e alimentado por uma inteligência artificial que rapidamente se adapta e evolui a partir de emoções e situações cotidianas. Samantha é prestativa, engraçada, conselheira, e mais do que tudo é empatica, preenche todas as necessidades emocionais de Theodore, mas não tem um corpo físico. Carente, Theodore logo desenvolve uma paixão, que é correspondida pelo sistema, mas que, apesar dos esforços de ambos, está fadada a não se concretizar.
Ela é um filme intimista e delicado sobre o amor na era da conectividade. O futuro retratado por Jonze apesar de tecnológico flerta com vários elementos retrô, como nas vestimentas dos personagens, no mobiliário e a fotografia do filme, levemente esmaecida. Mas além das belas imagens, da trilha sonora delicada e envolvente, a grande surpresa do filme é a interpretação extremamente convincente de Scarlett Johansson, como a voz de Samantha, que nos toca, envolve e nos faz torcer pelo impossível final feliz.

Ela (2013)
Spike Jonze

16 fevereiro - Segredos de Sangue (2013) - Chan-wook Park



A jovem Índia tem que lidar com a morte inesperada do seu pai no dia do seu décimo oitavo aniversário e a presença misterioso de seu tio Charlie, até então desconhecido, que passa a habitar a casa da família depois do velório. Com o convívio, começa a se estabelecer um jogo de sedução entre Evelyn, a viúva, e Charlie, sob o olhar frio de Índia, que também não passa despercebida do tio. As motivações da volta de Charlie ao seio familiar começam a ficar claras e sua presença no cotidiano da introspectiva e aparentemente frágil Índia, ativa na jovem a herança sombria do seu sangue.
A mistura de morte e sexo é uma combinação que Park sabe explorar com uma singular propriedade, como já visto em suas outras obras Lady Vingança e Old Boy. Em segredos de sangue o clima de mistério e tensão constantes, se dá muito pela montagem fragmentada do filme, pelo andamento cheio de sutilezas da narrativa e pela belíssima e soturna fotografia. Segredos de sangue é uma ótima estréia de diretor coreano no cinema americano.

Segredos de Sangue (2013)
Chan-wook Park

15 fevereiro - A espuma dos dias (2013) - Michel Gondry



Collin tem uma boa condição financeira e vive sozinho com seu rato de estimação e seu cozinheiro Nicollas. Durante uma festa de amigos, é apresentado a Chloé, com quem depois de alguns encontros, acaba se casando. Numa noite enquanto dorme, Chloé ingere um pequeno floco que se aloja em seu pulmão, causando-lhe uma doença rara cujo tratamento se dá com remédios caros e a aplicação diária de grandes quantidades de flores.
Michel Gondry cria um universo onde as leis da física são reinventadas e onde equipamentos interativos são ativados através de soluções quase mágicas. A espuma dos dias parece um pretexto para Gondry experimentar toda a sorte de trucagens do cinema analógico, em cenas inusitadas e muitas vezes belas, mas sem a preocupação com a eficácia ou a relação destes efeitos para o desenvolvimento da trama. O filme que começa bem, deslumbrando os olhos do espectador pela singularidade e o delírio das situações, logo cansa e se mostra carente de uma narrativa mais amarrada e personagens não tão rasos.

A espuma dos dias (2013)
Michel Gondry

11 fevereiro -Doce Amianto (2013) - Guto Parente, Uirá dos Reis



A doce Aminato corre feliz para encontrar seu amor. Pelo caminho, vai se transformando em várias outras mulheres felizes. Porém ao ser violentamente rejeitado, a frustrada Aminato refugiasse num mundo imaginário extremamente colorido, onde Blanchet, sua amiga morta, a ajuda a suportar a rejeição.
O filme é provocativo e tem uma atmosfera kitsch e inusitada, que pode lembrar David Lynch, mas é muito apropriada a estória. Muito no filme é excesso, desde a ambientação até a interpretação dos personagens principais (Blanchet, por exemplo, lembra o vilão “ele” do desenho das meninas super poderosas), mas este excesso não soa engraçado ou bufo, ele gera perplexidade e explicita ainda mais a fragilidade de Amianto em sua busca por afeto. O filme é do coletivo cearense Alumbramento que cada vez mais se destaca pelo cinema autoral que produz.

Doce Aminato (2013)
Guto Parente, Uirá dos Reis

25 janeiro - O lobo de Wall Street (2013) - Martin Scorsese




Scorsese narra à estória de Brendon Belfort, um jovem de classe média baixa americana que se transforma num magnata em Wall Street.
O primeiro contato de Brendon com mundo dos negócios foi marcante, seu chefe, Mark Hanna, imoral e inescrupuloso, lhe tira a visão romântica dos negócios e lhe mostra toda a selvageria que o meio precisa.
Brendon, seguindo os ensinamentos de seu ex-chefe, não poupa em drogas, espetáculos bizarros, discursos messiânicos e muito sexo para o grupo de desajustados, agora transformados em gananciosos corretores na sua poderosa empresa, a Stratton Oakmont.
Mas o Lobo de Wall Street, como passa ser conhecido pela riqueza rápida e ostensiva, chama a atenção do FBI.
Arremesso de anões, barbitúricos, contas na Suíça, cocaína, dinheiro, ostentação e luxuria, durante as três rápidas horas, um Scorsese, ácido como nunca, nos mostra a ascenção de um modelo de vida americano e sua inevitável punição pela moral também americana.
O tom humorístico dado pelo diretor tem alguns grandes momentos graças também a afinação entre Jonah Hill e Leonardo de Caprio. O lobo de Wall Street é um Scorsese maduro e ainda aberto a experimentos com a câmera e a direção, em sua grande forma.

O lobo de Wall Street (2013)
Martin Scorsese

19 de janeiro - A Grande Beleza (2013) - Paolo Sorrentino




O dia em Roma,deslumbrante, iluminado e quase sacro, opõe-se radicalmente às noites de batidão em que vive Jep Gambardella, um jornalista de 65 anos.
Jep, que chegou em Roma muito jovem, autor de um livro que lhe rendeu fama e dinheiro,  troca a noite pelo dia, desfrutando de luxuosas e cafonas festas promovidas pelos amigos intelectuais e ricos. O rei mundano, como gosta de ser reconhecido, foi incapaz de escrever outro livro, porém, durante sua jornada na vida loca, é tocado, em alguns momentos, por pequenos acontecimentos (a morte de seu amor de infância; a despedida decepcionada de Roma, feita pelo amigo; um encontro com um artista que se fotografa diariamente desde o nascimento; o contato com uma religiosa penitente que se alimenta de raízes) que podem lhe trazer de volta um sentido na busca pela grande beleza.
Comparações à parte com a Doce vida de Fellini, Sorrentino nos mostra a decadência de uma sociedade de  forma sublime e divertida. Poético e estranho, a grande beleza mistura morte, vida, arte e frivolidade e nos fala dos dias vazios, situações de acomodamento e inversão de valores, próprios de nosso tempo.

A Grande Beleza (2013)
Paolo Sorrentino

10 janeiro - Azul é a cor mais quente (2013) - Abdellatif Kechiche



Adéle tem 15 anos e vive o tempo de sua idade, os estudos, o grupo de amigos, os passeios, as manifestações políticas. Adéle é alertada pelas colegas, também adolescentes, sobre o desejo que causa em um dos rapazes do seu colégio. Ambos transam e ela percebe que algo está faltando, percebe também que este algo que falta, pode ser encontrado em Emma, uma artista plástica de cabelos azuis que cruza por ela em uma rua. Elas têm um primeiro contato, num outro momento, quando se encontram coincidentemente num bar L.
A aparição de Emma, na saída do colégio de Adéle, causa algumas tensões com seus colegas.(Tensões estas que eu esperava que fossem mais desenvolvidas no filme, mas não). O filme dá um salto no tempo e encontramos Adéle vivendo com Emma, numa apaixonada relação, que apesar das expectativas profissionais diferentes de cada uma, prospera. As duas protagonizam cenas longas e tórridas de sexo que, aparentemente não se abrem a outros significados ou acrescentam muita coisa ao filme.
Adéle, talvez pela imaturidade, talvez pelo peso do mundo, acaba por trair Emma que não a perdoa. O filme dá outro salto e temos agora uma Adéle mais velha, assexuada e triste, vivendo para o trabalho de professora que tanto apostava.
Três anos após a separação, o ex-casal se reencontra para falar de suas realizações e incompletudes.
Kechiche não é muito adepto do corte de edição, o filme que tem quase 3 horas de duração desnecessariamente, tem o mérito maior de retratar a situação de boa parte da juventude homossexual: a descoberta da sexualidade, enfrentamentos familiares e sociais e o desejo inominável acontecendo à revelia de tudo.

Azul é a cor mais quente (2013)
Abdellatif Kechiche